Candidatos e partidos concorrentes na hora da largada da campanha eleitoral

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Enquanto se fala da festa da democracia, a quem prefere chamar a hora do balanço final entre os três mais sérios contendores da cena política angolana, sendo certo que – queremos crer- quem ganha não ganha tudo e quem perde, perde nada, a bem do desenvolvimento económico, social e cultural do país e da concórdia nacional
Por: Norberto Costa

Como é sobejamente sabido, a campanha política rumo às eleições de 23 de Agosto conheceu já o seu tiro de partida a 23 de Julho último. João Lourenço, o candidato do MPLA já vai avisando que é preciso cerrar fileiras na luta contra a corrupção, prometendo um combate sem tréguas contra este “mal o pior depois da guerra”, como qualificou José Eduardo dos Santos – combate que o PR desconseguiu.
Tal é a gangrena de corrupção galopante que corrói o tecido social e humano angolano de alto a baixo e que não se esgota no suborno do peixe miúdo que pede gasosa ao virar da esquina. Há que dirigir o combate ao peixe graúdo. A ver vamos se o seu combate cerrado terá pernas para andar, com a burguesia milionária que se instalou, de pedra e cal, na alta esfera do poder a custa da gestão perdulária do erário público, fazendo negócio consigo mesmo ou através de conhecidas testas de ferro, que o tráfico de influências deixa escapar; combate hercúleo que se mostra quase impossível de atingir, se não afastar os corruptos da alta hierarquia do poder.
De promessa em promessa, JL promete melhorar o que está bem e corrigir o que está mal, de resto o slogan da sua campanha político-eleitoral, desde que se pôs à estrada desde Fevereiro, para se dar a conhecer sobretudo junto do eleitorado cativo do MPLA, sem falar dos indecisos e hesitantes, maioritariamente jovens fora do sistema de ensino formal e informal (profissional)e sem emprego. No que refere a formação dos jovens promete 6 mil bolsas internas e garante enviar para especialização no estrangeiro, nas melhores universidades do mundo, os que se destacarem entre este grupo-alvo como “alunos de excelência”.
Na saúde que anda doente faz tempo, promete melhorias, tal como na agricultura e já agora diz querer apostar na industrialização, vencida a guerra há 15 anos. O candidato do MPLA lança farpas aos seus concorrentes que dizem garantir emprego aos jovens desempregados, um discurso que é transversal à UNITA e `a CASA-CE. Mas, o principal alvo de João Lourenço no comício do Bié, segundo depois de alguns meses da sua apresentação nas terras que o viu crescer e medrar para a vida, onde o pai foi presidiário por actvidades clandestinas a favor da causa independentista, foi a UNITA, mesmo sem cita-la.
Por seu turno, Samakuva diz que garante não só emprego aos jovens e um salário mínimo de 500 dólares. O seu adjunto, Raul Danda, assegura que em 10 dias de produção petrolífera será possível cumprir com tal promessa. Economista de formação o vice-Presidente saberá do que fala em matéria de gestão da coisa pública, quando o partido no poder e seus arautos dizem que tal objectivo não é susceptível de ser alcançado. O futuro dirá de que lado está a razão, sendo que a direcção da UNITA entende que os recursos minerais são bastantes para tirar o povo da miséria, da fome e da pobreza, sem prejuízo do investimento cada vez maior na agricultura, numa altura em que o OGE actual consagra apenas 1 por cento para o sector, tido, paradoxalmente, como alavanca da diversificação da economia e o que mais postos de trabalho garante em extensão e profundidade, dado que o grosso da população angolana vive do campo.


A APN, o mais novo entre os partidos concorrentes, uma emanação da Aliança Democrática extinta em 2012, assume-se como o partido da Juventude. O seu líder Quintino Moreira, jurista formado em ciências político-administrativas pela Jean Piaget, gabou-se de ter implantação nacional na sua recente viagem ao Uíge, no âmbito da campanha: “viemos ao Songo no quadro das eleições. Nós demonstramos que temos gente em todo país.” Um luxo a que partidos minoritários mais antigos não se podem dar, o que não deixa de ser “contra natura” para os aliados patrióticos.
O PRS o terceiro da lista de concorrentes não deixou escapar a sua incompetência, com uma campanha insonsa como na edição passada. Vive mergulhado num mar de problemas já denunciado pelo candidato derrotada Sapalo António. A crise interna é só superada pela FNLA. O PRS nem sequer conseguiu levar ao ar na TPA, o seu tempo de antena de cinco minutos no sexto dia da campanha, depois dos atrasos do primeiro dia. É por essa e por outras que a maior parte dos partidos políticos não se deverão queixar da hegemonia do MPLA na media pública, mais que governamentalizada nos últimos tempos, a julgar pelos directos que o candidato da bandeira rubro-negra beneficia, numa corrida mediática que os deixa anos luz dos demais concorrentes, apesar do ar de abertura que vão dando a TPA, a RNA e o JA, ainda está longe do equilíbrio informativo que se reclama insistentemente, que se traduziria na objectividade e da insenção, duas regras de ouro do jornalismo sério e responsável.
Entretanto, apesar da desorientação reinante entre o PRS, Benedito Daniel, o seu novo líder prometeu uma universidade agronómica no Kwanza Sul, a julgar pelas suas potencialidades agrícolas, como se fosse um exclusivo daquela província, numa altura em que deverá beneficia de um financiamento da FIDA, tal como a Huíla e Benguela, na ordem dos milhões de dólares. Assim sendo, acaba por chover no molhado, pois por esse andar iríamos assistir a uma universidade mineira nas Lundas, cafeícola no Uíge e por aí a afora, a julgar pelo raciocínio de B.Daniel. Mas, nem tudo são espinhos na campanha do PRS, pois reivindica o seu principal cavalo de batalha desde a sua fundação, objetivando sempre o federalismo para Angola, mesmo que rema contra o espírito legal do estado unitário. Mais: Benedito Daniel diz que vai fazer um referendo para tanto se for governo, animado da perspectiva de que 50% dos recursos explorados em cada província ficaram para o desenvolvimento local. Mas, a grande questão que se coloca é se o PRS vai manter-se com 3 deputados, ou vai ficar com dois ou apenas um, já que de legislatura em legislatura vai perdendo assentos, correndo mesmo o risco de baixar de divisão convertendo em partido extra-parlamentar.
O mesmo risco é experimentado pela FNLA, ainda em maior escala, se não vier mesmo a ser extinto no médio prazo, com tudo quanto isso representa de negativo para a memoria colectiva nacional, enquanto partido libertador de Angola das garras do colonialismo. Depois das várias querelas internas, dividido em várias alas, só um milagre poderá salvar a FNLA do pior, pois a sua campanha não tem a chama de outrora, quando conseguiu eleger 5 deputados em 1992, com ajuda de Deus, como diria o falecido Holden Roberto, o seu líder fundador. Tais riscos de extinção foram contornados pelo Bloco Democrático e o PDP-ANA que não concorreram nas eleições passadas, coligando à CASA-CE. Esta única coligação apresenta-se como uma séria concorrente entre a UNITA e o MPLA e não ser poder, acreditam os observadores, que poderá subir a sua representatividade de 8 para 20 lugares no parlamento. Uma sondagem recente atribui mesmo um desempenho melhor a Abel Chivukuvuku e seus correligionários a ultrapassagem da UNITA e a colocação em segundo lugar quando forem divulgados os resultados finais das eleições do próximo dia 23. De resto, sondagem já contestada, como não poderia deixar de ser, pela direcção da UNITA, que pretende ser poder e viabilizar a mudança, em definitivo, um slogan que também é usado pela CASA-CE. No fundo, no fundo, com a oposição pelejando dividida, quem deverá levar a água ao seu moinho é a o MPLA, que se bate para conquistar uma maioria qualificada, para formar governo sozinho, conforme já defendeu o seu candidato João Lourenço. Mas, um cenário não menos provável é que renhida como estão as presentes eleições, é provável que ocorra uma maioria relativa por banda do vencedor, sendo obrigado a partilhar o poder com a terceira força política, ao contrário do pensa Alcides Sakala. Assim, sendo, se a CASA reconfirmar-se como a 3ª- força política, conquistando o voto dos indecisos, bem como dos descontentes do MPLA e da UNITA, tal como na edição passada, poderá emprestar o seus quadros a uma coligação partidária com o MPLA ou não, contando com os pesos pesados do Bloco Democrático, sem prejuízo doutros quadros que a coligação comporta desde a sua função e não só. Mas, sejam qual for a tendência e expectativas dos eleitores, o voto juvenil será determinante, para esta faixa etária que “não beneficiou do bom do petróleo”, circunstância que joga contra o partido no poder, a braços com uma profunda crise dos petro-dólares, que lhe levou a embargar algumas obras que pretendia mostrar junto do eleitorado cativo e não, bem como desencadear no contexto do desenvolvimento nacional nos últimos três anos, com algumas “estradas de esferovites” à mistura, frustrando os esforços feitos nos mais variados sectores no âmbito do crescimento da economia que mais crescia em África e no mundo, em geral. Só que tal crescimento físico parece que foi sol de pouca dura, não tinha fundamentos consistentes em termos de desenvolvimento humano.
Enfim, enquanto se fala da festa da democracia, a quem prefere chamar a hora do balanço final entre os três mais sérios contendores da cena política angolana, sendo certo que – queremos crer- quem ganha não ganha tudo e quem perde, perde nada, a bem do desenvolvimento económico, social e cultural do pais e da concórdia nacional.

 

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