Caso Panda: Sociedade aguarda explicação e familiares exigem responsabilização judicial

Nacional Off 53

Após o acidente de viação que envolveu o Comandante Panda e que resultou em vítimas mortais, os familiares das vítimas pedem justiça, um caso que certamente ainda vai fazer rolar muita tinta

Fernando Guelengue
Os familiares das vítimas estão a criar condições para levar o caso ao Tribunal Provincial de Luanda. Esta afirmação é de Domingos Benvindo, tio da jovem Noémia Adelino Catulichi, de 20 anos, que já foi a enterrar.
O tio da vítima contou em exclusivo ao NgolaJornal que nas semanas passadas estavam na fase de reflexão da família e que nesta segunda-feira, 6, a sua família iniciou os contactos com advogados de referência para dar seguimento do processo. “O óbito acabou há poucos dias. Mas já falamos com alguns advogados bem posicionados para começarmos a criar o processo contra o comandante Panda”, frisou Domingos Benvindo, acrescentando que apenas desejam que a justiça seja feita.
Questionado se o processo está a ser tratado em concordância da família de João Artur Jimbo, o nosso entrevistado disse não haver qualquer aproximação da mesma, o que dificulta qualquer união de forças.
Até ao momento, o comandante-geral cessante ainda não concedeu qualquer entrevista à imprensa, mesmo depois de procurado pelos órgãos de comunicação de comunicação social.
Segundo o comunicado emitido na altura pelo Comando Geral da Polícia Nacional, o acidente ocorreu por volta das 22h30, no Distrito do Kilamba, Avenida Comandante Jika, defronte ao Shopping Xyami, quando a viatura conduzida pelo então comandante-geral da Polícia Nacional colidiu com uma outra.
“O Mercedes Benz, modelo ML530, conduzida pelo comissário-geral Alfredo Eduardo Manuel Mingas “Panda”, transitava em sentido Sul-Norte pela Avenida Comandante Jika, e a viatura de marca Hyunday, modelo I10, de cor branca, saía do interior do Bairro Vila-Flor 1, para aceder à via principal (Avenida Comandante Gika), tendo provocado o choque entre ambas”, lê-se no documento.
Do acidente, acrescenta o comunicado, resultou a morte dos cidadãos João Artur Jimbo, condutor do Hyundai (no local), e Estrela Serenata (ocupante), já no hospital, além do ferimento do comandante Panda, tendo sido cumpridos todos os procedimentos técnicos e legais em casos de acidentes de viação, segundo o comunicado, o processo corre os seus trâmites junto das instâncias competentes.No comunicado, a Polícia Nacional “lamenta profundamente” o ocorrido e endereça às famílias enlutadas sentimentos de pesar.

A visão dos especialistas

O jurista e advogado da Associação Mãos Livres, Guilherme Neves, foi categórico ao afirmar que o caso em que o cidadão Alfredo Mingas “Panda” está envolvido é um crime comum, do ponto de vista criminal.

“O que podemos referir nesta análise é que se trata de um homicídio involuntário”, frisou Guilherme Neves, acrescentando que no momento em que nos encontramos, é bem provável que já deve estar nas instâncias do Ministério Público, instituição que pode efectuar a acusação junto do Tribunal Provincial de Luanda.

Por sua vez, o sociólogo Roberto da Conceição realçou a posição de Panda ao solicitar a sua demissão tendo em conta a pressão social e a posição em que o mesmo se encontrava.

“As pessoas quando ocupam um cargo de chefia zelam também pela sua integridade moral. Assim sendo, é nesta lógica que Alfredo Mingas “Panda”, sentindo que havia uma preocupação social derivada de um interesse público e na Comunicação Social, preferiu solicitar a demissão colocando o seu cargo à disposição”, explicou o Sociólogo, acrescentando que as redes sociais também exercem um papel de grupo de pressão.
O sociólogo salientou ainda que há uma sanção moral que é claramente antecedente da sanção política ou de justiça. “Este é um aspecto que temos de analisar porque nada diz que ele é culpado, pois ainda não foi condenado. As redes sociais e a media tornaram o caso de relevo, mas a justiça deve fazer o seu trabalho de forma independente sem qualquer pressão social”, concluiu.

Opiniões Divididas

Depois do acidente de viação que envolveu o comandante-geral cessante da Polícia Nacional (PN), Alfredo Mingas “Panda”, no dia 24 de Julho último, causando a morte dos jovens João Artur Jimbo, de 29 anos e Noémia Adelino Catulichi, de 20 anos, a nossa reportagem saiu às ruas para ouvir as reações da população em relação ao assunto.

Tal como nem tudo que brilha é ouro e os gostos são indiscutíveis, a sociedade luandense encontra-se dividida quanto ao caso que envolve o comandante Panda, depois de estar envolvido neste acontecimento.

Pedro Simão, motorista, disse ao NgolaJornal que a situação que envolve o antigo comandante é lamentável por se tratar do homem que aplicou algumas reformas na Polícia Nacional. “Recordo que na época do seu antecessor, conduzir embriagado era uma situação quase normal, mas a chegada deste comandante rigoroso fez melhorar a forma como os automobilistas começaram a agir e reduziu as mortes nas estradas. Só não esperava que a situação ocorresse com ele próprio”, referiu o condutor, acrescentando que deve ser dado a possibilidade de uma investigação do caso para se chegar a uma verdade que dará paz às famílias enlutadas.

Quem corrobora da mesma opinião quanto ao destino a ser dado ao caso do comissário-chefe Alfredo Mingas é o estudante pré-universitário Carlos Mateus.
Para o jovem da 12ª classe, do Liceu 24 de Junho, o erro é humano e devemos perdoar um cidadão que muito fez para reduzir a criminalidade no seu bairro. “Eu vivo em Cacuaco, na zona da Boa Esperança I. Antes da entrada deste comandante havia muita criminalidade no nosso bairro, mas agora, com o seu trabalho que vimos sempre na televisão, o bairro está bem calmo”, adiantou o morador, mostrando-se indignado com a exoneração do comissário-chefe.

Ao contrário destes dois interlocutores, Márcia André, estudante universitária e moradora do Sambizanga, fez saber que todos os cidadãos são iguais perante a lei e o comandante deve ser responsabilizado para que sirva de exemplo no país. “O país está a caminhar de uma forma diferente. Precisamos mostrar para o mundo que estamos numa nova era, a mesma que o presidente João Lourenço tem estado a apelar. Desta forma, a exoneração do comandante demonstrou maturidade e sentido de justiça. Agora, cabe o comandante ser notificado para esclarecer o que realmente aconteceu”, explicou Márcia André, mostrando-se entendida nos assuntos do país, encorajando os familiares e os angolanos a continuarem a fazer pressão através das plataformas digitais e meios de comunicação social para se descobrir a verdade.
As vítimas foram a enterrar no dia 28 de Julho último, quatro dias depois do acidente. Alfredo Eduardo Mingas “Panda” estava numa viatura de marca Mercedes Benz, modelo AMG 530, sendo que as vítimas se encontravam numa viatura de marca Hyundai, modelo I10, de cor branca.

O percurso de Panda

Sabe-se que Alfredo Eduardo Mingas “Panda”, é formado em Israel, tendo passagem na Polícia de Intervenção Rápida e esteve ligado a uma missão de trabalho fora do país, com funções especiais no campo do apoio que Angola presta ao regime de Joseph Kabila.
De regresso a Luanda foi nomeado segundo Comandante-geral da Policia da Polícia Nacional em acumulação com o cargo de comandante provincial de Luanda. Foi mais tarde afastado, supostamente a seu pedido.

É considerado homem de confiança de Manuel Hélder Vieira Dias “Kopelipa”, antigo chefe da Casa Militar do ex-presidente da República, José Eduardo dos Santos, ao qual coube coordenar e centralizar as acções na República Democrática do Congo. Sempre foi citado como potencial candidato ao posto de comandante-geral da PN, em substituição de Ambrósio de Lemos.

Cogita-se que Alfredo “Panda” tem se dedicado nos negócios privados, ao lado do ex-comandante-geral da PN, José Alfredo “Ekuikui”, que fazem parte da empresa de segurança KeP Mineira, responsável pela protecção de empresas do sector diamantífero.

 

Hits: 213
ArabicChinese (Simplified)EnglishFrenchPortugueseSpanish