No fim das contas, houve (sobre)saltos nas eleições

Politica Off 21

As eleições em Angola continuam a ter a mesma configuração, tanto do ponto de vista organizativo, financeiro e, até, do ponto de vista ético dos principais actores do processo, começando pela própria Comissão Nacional Eleitoral (CNE) que, praticamente, reeditou as falhas das eleições anteriores.
Olhando muito bem para trás, precisamente para aquilo que foi a campanha eleitoral, conclui-se que, em Angola, existem bons apreciadores e fazedores da política, mas também, para não variar, existem maus políticos. São daqueles que só aparecem para lograr alguns louros, pior ainda nesta fase de crise.
Tratou-se de uma campanha eleitoral que, para já, entrará na história política angolana, por ter sido um momento em que desapareceram mais alguns rostos da praxe e de marca para algumas formações políticas, sobretudo do MPLA, com a saída de cena do seu presidente.
Matematicamente, tratou-se, também, de uma campanha em que a lista de concorrentes emagreceu cada vez mais, se comparada com as eleições anteriores. Isto ilustra, como este Portal foi fazendo referência, que gerir um partido dentro dos imperativos constitucionais afigura-se mais operoso

Por: Diniz Kapapelo

MPLA trouxe o imprevisível
Nas campanhas eleitorais passadas, o MPLA, na estratégia de não deixar os créditos em mãos alheias, tinha os canos direccionados para ao seu arquirrival, a UNITA, com quem mantém uma história de todos os dissabores.
Em 2017, houve uma correcção de algumas canções da praxe, e deu a mão à palmatória, devido a alguns problemas que maculavam e ainda maculam a sociedade angolana. João Lourenço insistiu naquilo que nenhum outro dirigente deste país fez, que é o combate cerrado à corrupção, ao compadrio. Mais do que a própria divisa da sua campanha que é melhorar o que está bem e corrigir o que está mal, está o combate à corrupção que se traduziu no cartão de visita da campanha de João.
JLO, como também ficou conhecido, depois da era de Zé Dú, na verdade, começou com um discurso que ‘assustou’ a nação toda, por ser inovador. Os outros tantos proferidos pelos demais dirigentes foram se ajustando à esta estratégia que o MPLA traçou para estas eleições.
Contrariamente ao que se esperava, houve momentos de algum nervosismo em que, para contrapor as iniciativas ofensivas da oposição, foi preciso recorrer ao velho discurso do tempo de guerra. Isso irritou, de certa forma, aqueles que não viveram as agruras do conflito armado, já a maioria dos eleitores são jovens, e aquando do alcance da paz, em 2002, tiveram pouca ou até inválida capacidade de discernimento.
Diga-se, o MPLA, nestas eleições usou a sua máxima força na luta para convencer o eleitorado, usando alguns meios não comuns à realidade angolana e africana, em geral.

UNITA da tremura foi à ‘pole position’


A campanha eleitoral da UNITA arrancou de forma tímida, tanto nos seus discursos como no campo organizativo, a ponto de a estreia do tempo de antena na TPA ter conhecido um dos piores desastres.
Com um discurso voltado às críticas da má gestão do erário público pelo MPLA e à criação de políticas consideradas consentâneas para se inverter o actual quadro, sobretudo nos sectores da saúde e educação, este partido – dizem os analistas – esmiuçou demais o seu programa eleitoral. As enchentes nas suas actividades mostraram que o “Governo Inclusivo e Participativo – GIP”, proposto não são apenas linhas para enriquecer o hábito de leitura. O salário mínimo de 83 mil kwanzas que a UNITA prometeu pagar com a produção de petróleo de apenas 10 dias, foi outra marca.
As queixas da praxe não passaram disso mesmo: fraca cobertura eleitoral por parte dos órgãos públicos de comunicação social, irregularidades por parte da CNE, riscaram pela negativa o clima durante a campanha eleitoral ‘dos maninhos’.

CASA-CE ‘engordou’ dentro e fora
Não será errado colocar a Convergência Ampla de Salvação de Angola (CASA-CE) na categoria de formação política revelação, pela segunda vez consecutiva.
O seu tempo de existência associado à acutilância mais a forma como foi se compondo com a entrada no seio de outras forças políticas, representa, sem dúvidas, uma faceta bem-talhada.
O seu líder, Abel Epalanga Chivukuvuku, movimentou o país com o seu bem-fazer a ponto de em algumas localidades colocar-se na linha da frente ao lado do MPLA e da UNITA, sobretudo nas províncias do Leste, do centro e sul do país. Mas também em Luanda.
Vista por dentro, fica-se com a ideia rigorosa de que a CASA-CE veio mesmo para ficar, pelo menos no formato actual de coligação onde integram grandes barões que a política doméstica patenteia.

PRS anda à moda antiga
Com rostos novos, pelo menos visto de cima para baixo, o Partido de Renovação Social (PRS), surgiu na corrida eleitoral com alguns rostos novos, apesar de o discurso, na sua essência, continuar preso ao federalismo.
O rosto mais visível e mais mediático foi, praticamente, o seu presidente, Benedito Daniel. Sapalo António, que também concorreu à presidência do partido em Maio último, quase que desapareceu de cena, contrariamente a João Baptista Ngandajina, que foi mexendo alguma palha ao longo da campanha eleitoral.


A presença do PRS, em todo país, foi notória apesar de o discurso ter estado um pouco preso ao que os ‘grandes’ foram dizendo. As províncias do leste de Angola continuam a ser ainda os seus grandes bastiões. Espera-se por uma recuperação deste partido, em termos de resultados, comparativamente às eleições de 2012.

FNLA concorreu aos farrapos


Apesar de todas as tentativas de unir a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), esta não conseguiu juntar todos seus retalhos. Até ao dia da votação não se tinha uma ideia global das intenções de voto da ala de Ngola Kabangu e da equipa de mediação.
Lucas Ngonda, presidente deste partido histórico, furta-se recorrentemente a aceitar que existe uma crise no seio da formação política, que em quase todas províncias do país, mantém duas sedes.
A sua campanha eleitoral, apesar de ter recebido recursos para subsidia-la, não deu muito nas vestes, aliás como aconteceu em 2012. A bandeira da sua campanha foi direccionada ao melhoramento da vida dos antigos combatentes que, são, na essência dos seus militantes.

APN, a opositora dos parceiros
Longe de inovações, em termos de relacionamento com outras forças políticas da oposição está a Aliança Patriótica Nacional (APN), que, como sempre, traz sempre alguma inovação.
Quintino Moreira, seu presidente confiava no regresso ao parlamento onde espera ter uma postura virada para questões concretas. A sua campanha eleitoral trouxe à luz o ditame de que não é mesmo proibido sonhar. Ou seja, se ele ganhasse, um dia, teríamos tantas capitais identificadas com os potenciais do país. Para além das capitais política, económica, turística, industrial, ecológica, … teríamos outras. Nos seus olhos sobressaem outras ideias. Se aparecerem outras capitais como do diamante, do feijão, do café e da mandioca não será certamente novidade.
Mas a grande ambição de um jovem que é, é de pretender transformar o Namibe numa cidade comparada ao Dubai. Grande ambição. De resto, a sua campanha eleitoral, para uma força política nova, teve uma pompa bem banhada na circunstância.

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