Hossi sobre o caso Café del Mar: “O mesmo que me carregou foi o que me esbofeteou. Deu-me chapadas!”

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“Felizmente eu cheguei ao banheiro só que no regresso deparo-me com sensivelmente quatro ou cinco seguranças a civil, os ditos cahenches mas os que ficam armados estavam apenas na porta do restaurante. Dentre estes, que me interpelaram no banheiro, estava o responsável pela segurança do café del Mar. Começaram a questionar-me: quem é você? Vens de onde? O que está a fazer aqui? Então eu respondi que estava lá com os meus amigos e apenas tinha ido usar o banheiro e que estava a ir ao encontro deles. Estes não quiseram ouvir-me e obrigaram-me a segui-los, reclamei que não o faria porque não os conhecia, não sabia para onde queriam levar-me e a única coisa que faria era ir ao encontro dos meus amigos. Fui resistente e não aceitei. Foi o suficiente para um deles agarrar-me, à força, como um bebé até ao exterior do restaurante e atiraram-me ao chão na entrada do restaurante. Estava tudo visível. O mesmo que me carregou, usando a força, foi o que me esbofeteou. Deu-me chapadas!”, este é o relato do jovem activista cívico Simão Hossi que denunciou publicamente o caso de discriminação e agressão física de que foi vítima no referido restaurante, um caso que chocou a sociedade angolana

Fernando Guelengue (texto)
Guilherme da Silva (fotos)

Ngolajornal (NJ): No dia 26 de Agosto último foi alvo de descriminação e agressões físicas no restaurante Café del Mar. Como tudo aconteceu?
H.S.: Neste dia, eu estava com mais dois amigos (angolanos) e um cidadão norte-americano que esteve em missão de serviço aqui no País. Os meus dois amigos angolanos têm as suas viaturas e combinamos nos encontrar no Hotel Presidente, adjacente ao Porto de Luanda, onde o nosso amigo estava hospedado.
Fomos apenas com uma viatura, chegamos no hotel e pegamos o nosso amigo. A ida à Ilha de Luanda e a escolha do restaurante Café Del Mar, vulgo “Coconote”, foi à escolha do nosso visitante norte-americano. Chegamos ao restaurante e estacionamos. Entramos no restaurante sem problemas. Quando chegamos ao local, um dos seguranças que protagonizou a agressão, por acaso, foi o que nos ajudou a estacionar a viatura.
Por ser domingo e por volta das 16 horas, o restaurante estava cheio com banhistas e outros clientes. Foi daí que socorremos a uma das funcionárias para encontrar uma mesa para sentarmos.

N.J.: E vocês já estavam acomodados no restaurante?
S.H.: Neste mesmo instante, em que solicitamos uma mesa, decido ir ao banheiro. Todos estávamos em pé e a aguardar um lugar, mas fui ao encontro de uma jovem que estava com uma bandeja e informou-me a direcção onde ficava o banheiro. Segui em diante, conforme orientação da mesma. E como não conseguia alcançar o banheiro, deparo-me com uma funcionária de limpeza e volto a questionar onde ficava exactamente o banheiro. Esta, por sua vez, ao invés de dizer onde ficava interrogou-me num tom arrogante. Ela questionou-me de onde eu vinha!

N.J.: Foi a partir daquele instante que tudo terá começado?
S.H.: Sim. Fiz uma leitura rápida sobre o acontecimento. Questionei-me como uma funcionária de limpeza, vendo um cliente que está no interior do restaurante e a necessitar o banheiro, ainda questiona de onde ele vem? Decidi responder ela nos seguintes termos: – então a senhora me está a ver aqui no restaurante e me questiona desta forma? Finalmente, ela indicou-me. Na medida em que me deslocava ao banheiro, vi uma jovem funcionária de pele clara, mas não consigo precisar se é branca ou mulata, que estava a seguir-me porque a mesma acompanhou a conversa com a funcionária de limpeza. Suponho ser a mesma que terá chamado os seguranças para irem ao meu encontro no corredor do banheiro.

N.J.: Mas conseguiu mesmo chegar ao banheiro do restaurante?
H.S.: Felizmente eu cheguei ao banheiro só que no regresso deparo-me com sensivelmente quatro ou cinco seguranças a civil, os ditos “cahenches” mas os que ficam armados estavam apenas na porta do restaurante. Dentre estes, que me interpelaram no banheiro, estava o responsável pela segurança do café del Mar. Começaram a questionar-me: quem é você? Vens de onde? O que está a fazer aqui? Então eu respondi que estava lá com os meus amigos e apenas tinha ido usar o banheiro e que estava a ir ao encontro deles. Estes não quiseram ouvir-me e obrigaram-me a segui-los, reclamei que não o faria porque não os conhecia, não sabia para onde queriam levar-me e a única coisa que faria era ir ao encontro dos meus amigos. Fui resistente e não aceitei. Foi o suficiente para um deles agarrar-me, à força, como um bebé até ao exterior do restaurante e atiraram-me ao chão na entrada do restaurante.

N.J.: Todos os demais clientes estavam a ver o episódio?
S.H.: Estava tudo visível. O mesmo que me carregou, usando a força, foi o que me esbofeteou. Deu-me chapadas!

N.J.: Como e onde ele te bateu?
S.H.: Bateu-me no rosto. E foi mesmo sensivelmente duas ou mais mas, ao longo do trajecto, enquanto eles carregavam-me, continuava a questioná-los o que estava a se passar, estes, por sua vez, alegaram que eu não tinha juízo, estava a ficar maluco e que aquele não era um lugar para mim. Estas palavras foram proferidas pelos seguranças. Resisti e como eram muitos, os lavadores de carro que estavam fora aconselharam-me a ir à Polícia e não resistir com eles.

Bateu-me no rosto. E foi mesmo sensivelmente duas ou mais mas, ao longo do trajecto, enquanto eles carregavam-me, continuava a questioná-los o que estava a se passar, estes, por sua vez, alegaram que eu não tinha juízo, estava a ficar maluco e que aquele não era um lugar para mim. Estas palavras foram proferidas pelos seguranças. Resisti e como eram muitos, os lavadores de carro que estavam fora aconselharam-me a ir à Polícia e não resistir com eles.

N.J.: E neste instante, onde estavam os seus amigos?
S.H.: Já estavam acomodados. Também já haviam solicitado algo para consumir e não sabiam o que estava a se passar comigo, como não me estavam a dar acesso ao restaurante para informar aos amigos, enviei uma mensagem de urgência a eles informando que eu estava com problemas e fora do restaurante, por sorte, passavam alguns agentes da Polícia Nacional, que rondam na via pública com bicicletas. Interpelei-os, expliquei o problema e, com ajuda deles, fomos falar com os responsáveis do mesmo restaurante. Eu não queria sair daquele local sem saber o que estava a acontecer de facto. Nem sequer estava a olhar para a questão racial porque no grupo dos quatro em que eu fazia parte, todos éramos de pele negra e apesar de no interior do restaurante ter maioria os da raça brancos e mulatos, haviam igualmente muitos negros.

N.J.: Quais foram as suas primeiras impressões?
S.H.: Estava certo de que se tratava de descriminação. Falo isto porque na presença da Polícia e dos meus amigos, eles, o pessoal do restaurante, alegaram que eu vinha do mar por ser um restaurante de praia mas depois começaram a avançar a ideia de que no local têm entrado pessoas que roubam fios de ouro aos seus clientes, dando a entender que me confundiram com delinquentes, por último, falaram que a minha vestimenta não estava adequada para frequentar o restaurante. A forma como eu estava trajado é pública, eu estava com uma camisola normal, uma calça e uma chinela. Depois da Polícia ouvir-me na presença dos responsáveis do restaurante, que estavam a trabalhar naquele mesmo dia, os agentes aconselharam-me a se dirigir-me à uma esquadra local para apresentar uma queixa-crime. Assim procedi.

N.J.: O que motivou os agentes da Polícia Nacional a aconselharem-no a abrir um processo-crime?
S.H.: Eu estava exaltado porque os funcionários do Café del Mar estavam a negar, categoricamente, a acção violenta como me tiraram daquele local porque alegavam que não haviam vestígios de sangue ou torturas em mim e eles acharam que as minhas declarações eram infundadas, como eu estava a exigir justiça, solicitei aos polícias que observassem as câmaras de segurança do estabelecimento para certificarem que eu não estava a mentir, eles disseram que esta solicitação depende de um mandato.

N.J.: Como sentiu em relação ao que vivenciou naquele dia?
S.H.: O choque foi tão brutal que, se não tivesse alguma calma ou entendimento dos meus direitos, partiríamos para agressão, ou seja, deveríamos lutar mesmo. Depois da explicação dos agentes da Polícia, entendi que não podia continuar a insistir. Eles (os funcionários do restaurante) começaram a solicitar que voltássemos à mesa para continuar a nossa despedida ao amigo. Já não tínhamos moral para estar naquele lugar porque a forma como o suposto gerente e a sua equipa nos tratou, demonstrava descriminação racial e preconceito pela minha pessoa. Confundiram-me com bandido, havia racismo e preconceito no Café Del Mar.

N.J.: Denunciou publicamente o que ocorreu.
S.H.: Quando chego em casa, decido fazer uma publicação no Facebook, mas tinha ocultado ainda o nome do restaurante mas as pessoas questionavam tanto o nome do local e criticavam-me porque estava a ocultar a identidade de uma instituição que fez passar situação menos abonatórias. Editei e coloquei o nome do Café Del Mar, foi daí que foram surgindo ondas de solidariedade.
O Benedito Jeremias, “Dito Dalí”, decidiu escrever um texto que teve muita repercussão na Media e nas Redes Sociais, mas ele focalizou o aspecto do racismo.

N.J.: Será que o facto de ter sido encarado como activista levou a que o intimidassem?
S.H.: Honestamente, não sei. Uma das coisas que cheguei a pensar foi o tipo de camisola que eu trajava. As palavras de ordem que estavam nela e a imagem eram de Steve Biko, que dizia, traduzindo, “chorando por liberdade”. Não sei se também tem a ver com estes dizeres deste activista africano, mas concluo que não porque a nota do restaurante estava clara. A nota é clara. Eles diziam que eu estava sujo, aparentava que não tinha prática de higiene, que não tomo banho, que a minha roupa estava rasgada e chinelas péssimas. Penso que não tinha nada a ver com o facto de sermos activistas.

N.J.: Sabemos que já tem o processo contra o restaurante. O que deseja de facto tendo em conta tudo o que se passou?

S.H.: Eu irei até as últimas consequências deste processo. Nesta terça-feira tivemos o contacto com o instrutor do processo, apesar de não ter ainda a oportunidade de saber mais sobre a investigação ficamos de nos encontrar amanhã para saber se o restaurante já foi notificado.

N.J.: Quem o vai representar junto das instâncias judiciais e policiais?
S.H.: Um número de 10 instituições e amigos prontificaram-se em ajudar para a defesa mas escolhi apenas um representante legal, que está a trabalhar comigo e a dar os passos posteriores com a procuração que já foi reconhecida no notário.

Pode também falar sobre a manifestação que foi convocada em protesto contra tudo o que relatou?
S.H.: Na verdade, eu não sou a pessoa ideal para falar da manifestação pelas razões que todos sabemos, não estou directamente ligado a organização da mesma. Sei que os mentores são pessoas conhecidas, que foram motivadas pelo que aconteceu comigo. Quando eu fiz a denúncia, muitos ainda estavam cépticos em relação a isso mas a nota de esclarecimento do próprio restaurante veio clarificar tudo e todos tiveram a certeza do episódio. Foi daí que os amigos me informaram o desejo de se manifestarem em função da situação de que fui vítima mas também para repudiar e chamar atenção às práticas de racismo e outras formas de descriminação que se têm vindo a enfrentar em Angola.
A ideia, ao que soube, é coibir que as pessoas sejam maltratadas pelas suas cores de pele e forma de estar na sociedade, bem como o respeito pela dignidade humana.
Sei que a marcha vai sair do Baleizão até ao Ponto Final, na Ilha de Luanda, onde haverá música, poesia, depoimentos e testemunhos de pessoas que já passaram por esta situação.

N.J.: Acredita que o seu processo será julgado de forma justa?
S.H.: Eu quero esperar por justiça. Talvez não seria a pessoa ideal para falar de mim mas noto que a sociedade encontrou no meu caso uma oportunidade para se começar a discutir o assunto e chamar atenção sobre os males que o racismo e outras formas de descriminação causam à sociedade.

N.J.: Está a ser ameaçado de alguma maneira?
S.H.: O que tenho visto e recebido é solidariedade. Não recebi nenhuma ameaça. Há muita solidariedade por parte dos companheiros do activismo que estão a organizar a manifestação e demais formas de acção bem como os colegas jornalistas que estão a divulgar o caso. Se esta onda de solidariedade continuar a coisa vai funcionar porque a minha advogada disse que são dois processos.

N.J.: Quais são estes processos de que está a se referir?
S.H.: O primeiro será um processo cívil, para que o restaurante me indemnize pelos danos morais, honra e a minha imagem que está completamente manchada. O segundo será um processo criminal, onde o restaurante será responsabilizado criminalmente pelas práticas de racismo de que fui vítima.

N.J.: Nesta altura, em que milhares de pessoas te citam nas redes sociais e na comunicação social todo o mundo pergunta: Quem é Simão Hossi Sonjamba?
S.H.: Tenho 23 anos, frequento o 3º ano do curso de Comunicação Social, na Universidade Independente de Angola. Exerço a profissão de jornalista e sou activista cívico há mais de 10 anos, tendo experiências em Angola e em outras partes do mundo.

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